Vivemos em um país de contrastes tão gritantes que chega a ser uma ironia chamar isso de “nação em desenvolvimento”.

No papel, o Brasil é uma democracia vibrante, governada por representantes do povo. Na prática, é um espetáculo de hipocrisia institucional.
No Rio de Janeiro, o retrato é brutal. A cidade mais icônica do país vive sitiada — por facções, por milícias, por governos omissos e por um Estado que perdeu completamente o controle. O cidadão de bem paga caro para existir: impostos, taxas, e ainda a “contribuição” forçada da criminalidade que se impôs como autoridade local. Enquanto isso, o poder público se esconde atrás de discursos, relatórios e promessas que não se sustentam diante da realidade das ruas.
E em Brasília, a alienação é total. Parlamentares que nunca pegaram um transporte público legislam sobre mobilidade. Políticos que jamais pisaram em um hospital público decidem sobre saúde. São salários astronômicos, assessores fantasmas, verbas de gabinete e privilégios sem fim — sustentados por uma população que trabalha duro e sobrevive com o mínimo.
A imprensa, que deveria ser o último bastião da verdade, tornou-se muitas vezes cúmplice do poder. Manchetes são moldadas conforme a conveniência. Escândalos somem das capas quando ameaçam os aliados certos. A narrativa é vendida como informação, e o cidadão, confuso, passa a viver em um universo paralelo de versões, não de fatos.
E no centro disso tudo está um governo que fala em reconstrução, mas cujas ações alimentam o mesmo sistema que destrói o país há décadas. Um governo que se apoia na retórica de inclusão, enquanto perpetua a dependência. Que defende “narrativas”, enquanto a realidade grita fome, desemprego e violência.
O Brasil é o país que tem tudo — e não realiza nada. Riquezas naturais, povo criativo, cultura vibrante. Mas seguimos aprisionados por uma elite política e institucional que transformou o Estado em seu próprio negócio. O povo trabalha, paga e assiste, impotente, ao espetáculo da corrupção e da demagogia.
Não é mais uma questão de ideologia — é uma questão de dignidade. O país precisa acordar. O Rio, símbolo da beleza e do caos, é o espelho do que nos tornamos: um paraíso sequestrado pela incompetência, pela impunidade e pela falta de vergonha de quem deveria liderar.
Enquanto não houver coragem de encarar os fatos e exigir responsabilidade real, o Brasil continuará sendo o país do faz de conta — aquele onde todos fingem que está tudo bem, enquanto a realidade, nas ruas, mostra exatamente o contrário.